sábado, 5 de abril de 2008

Parente, serpente?





Qual seria a real influência da família, sobre nosso estado emocional?


Essa dúvida se manifesta sempre quando questionamos as relações passadas, presentes ou em suposto futuro, com nossos pais, cônjuges, filhos, irmãos, tios e/ou avós.


Angústias, às vezes, são atribuídas não só a esses parentes, mas à falta deles. Uns diriam; “fui criado por tios”, outros; “na ausência, meu pai (ou mãe) me fez muita falta...”.


Parece que parente faz mal, tanto na sua presença, quanto na sua ausência, porque estamos sempre e sofregamente, presos à família, ou em busca de uma.


Talvez a questão toda decorra da incansável busca do ser humano pelo equilíbrio entre, aquilo que é desejável e aquilo que é possível, ou melhor, do distanciamento, lamento ou mágoa, diante das situações possíveis, reais e concretas, tomando como parâmetro exclusivo de felicidade, aquilo que seria desejável.


De modo geral, há uma tendência em culparmos a família, supondo que a maior parte do nosso sofrimento é advindo da dinâmica familiar, mas temos que observar a ocorrência de casos incongruentes; famílias aparentemente bem estruturadas podem abrigar pessoas com sérios problemas emocionais e comportamentais enquanto, por outro lado, pessoas sem nenhuma estrutura familiar, podem desenvolver-se de forma maravilhosa.


Considerando essas curiosas observações, juntamente com aquilo que eu disse antes, sobre a “família fazer mal” tanto por sua presença, quanto por sua ausência, comete-se engano grosseiro, ao procurar exclusivamente na dinâmica familiar, a responsabilidade pelo estado emocional ou tonalidade afetiva das pessoas.


Talvez o cerne do problema esteja na pessoa e não na família. Ou, com certo medo de estar sendo injusto, talvez a família ou a falta dela desencadeiem reações não-normais, nas pessoas previamente suscetíveis.


De fato, há suspeitas sobre tipos de pais que contribuem para problemas emocionais dos filhos. Vejamos a lista, paradoxal e muito curiosa, das características atribuídas aos pais que seriam capazes de causar eventuais desconfortos emocionais nos filhos.


Causariam sofrimento emocional os pais:


1 - Omissos e ausentes.


2 - Tiranos e opressores.


3 - Que exigem muito.


4 - Que não exigem nada.


5 - Que nutrem fortes expectativas sobre os filhos.


6 - Que não se interessam tanto pelos filhos.


7 - Que se separam para não brigarem mais.


8 - Que não se separam, mas brigam.


9 - Que só pensam em dinheiro.


10 - Que não ensinam a valorizar o dinheiro.


11 - Muito enérgicos (que limitam muito).


12 - Muito camaradas (não dão limites).


13 - Que não entendem (ou não querem entender) os filhos.


14 - Que interferem muito e querem saber de tudo.


15 - Que proíbem muito.


16 - Que permitem muito.


17 - Que nunca estão satisfeitos.


18 - Que acham que está sempre tudo muito bom.


19 - Etc.


20 - Anti etc.


Ora, diante de tamanha diversidade de atitudes atribuídas ao mau desenvolvimento emocional dos filhos, é lógico considerar que o “defeito” estaria mais na pessoa do filho, que nas atitudes dos pais.


Não se pode achar que a hipertensão, por exemplo, seja causada por uma dieta rica em sal, ou por excesso de absorção desse sal, ou por excesso de água, por falta de eliminação dessa água, por excesso de preocupações, pelo tédio de não ter o que fazer, por condições climáticas, por razões étnicas, por estresse, por questões familiares, etc.


A medicina não investiga exclusivamente em “como a pessoa ficou hipertensa”, mas, sobretudo, “porque ficou hipertensa essa determinada pessoa”. Ou seja, a medicina investiga predominantemente o hipertenso, mais do que seu entorno, já que “esse entorno” é compartilhado por muitas outras pessoas sem hipertensão.


Nessa linha de raciocínio, chegamos a suspeitar que uma família provedora do bom crescimento emocional e desenvolvimento psíquico satisfatório de seus membros não é, obrigatoriamente, aquela com ausência de conflitos. O potencial para um bom crescimento emocional e um satisfatório desenvolvimento psíquico, está centrado nas possibilidades que a família tem de encontrar alternativas para a solução de seus problemas e dos problemas de seus membros.


A lógica e sensatez parecem deixar claro que uma família intacta, porém cheia de conflitos e tensa, pode ter menos possibilidades de propiciar saúde a seus filhos que outra família, com menos conflitos e mais estável, independente da família ser original ou reconstituída (recasada).


Parece também, que a capacidade de harmonia do vínculo conjugal e conseqüentemente, do núcleo da família, pode ser considerado um indicador de saúde emocional dos pais, com reflexos sobre o bem estar dos filhos.


Esse enfoque é importante, na medida em que muitos pais se afligem diante das dúvidas sobre conseqüências, de possíveis falhas suas, no desenvolvimento dos filhos.


Ora, todos sabem que, numa mesma família, entre os irmãos os desenvolvimentos emocionais são diferentes, apesar de todos eles vivenciarem o mesmo ambiente.


Fatores pessoais são determinantes, mais importantes do que o ambiente familiar.


Muitas vezes nos deparamos com famílias muito bem organizadas e estruturadas onde, um membro promove grande desconforto emocional, gerando conflitos.


As atitudes de diálogo, compreensão, intencionalidade comum e cumplicidade nos problemas, promovem o bem estar emocional, gerando equilíbrio.


Não basta à família manter-se sem brigas, se a ausência das desavenças significa apatia, indiferença e distância entre seus membros.


Contundentes transformações da estrutura familiar vêm acontecendo nas últimas décadas. Entre essas transformações estruturais, as famílias recasadas ou reconstituídas ocupam lugar de destaque.


A tradicional estrutura do tipo, casal e filhos, tem sido substituída por mãe e filhos, ou pai e filhos, ou ainda pai, madrasta e filhos, ou mãe, padrasto e filhos, exigindo de todos os membros da família, uma adaptação aos novos papéis e à nova estrutura. Nesse processo de transição, há um esforço adaptativo e conseqüentemente, momentos de crise, que podem ser superados, quando ficar estabelecido um ambiente de cordialidade, tolerância, compreensão e carinho.


Assim como os primeiros anos de casamento são marcados por uma atmosfera de compreensão e felicidade entre o casal e, mais adiante, entre o casal e os filhos, também nos primeiros tempos do “re-casamento” podem comportar esse clima, no qual se expressa o sadio desejo de "dar certo".


Quando a intencionalidade dos membros da família, original ou reconstituída, for expressa em atitudes dirigidas para “que tudo deve ser feito para dar certo”, e o empenho das pessoas seja no sentido de “sermos felizes”, muito estará sendo feito para o bem estar emocional de todos.


Portanto, muito além da estrutura familiar, as atitudes de seus membros são determinantes para o bem estar geral. Devemos nos conformar entre o possível e o ideal, entre como gostaríamos que fosse e como é de fato, entre o que pode ser mudado e o que é desse jeito. Algumas coisas dependem do destino, algumas outras, das pessoas...


Enfim, maior tolerância e compreensão na tentativa de construção ou reconstrução da família, parecem contribuir para a sensação de bem-estar de todos os membros.

3 comentários:

  1. Mas esta consciência e clareza do indivíduo e sua responsabilidade familiar não são para todos, e sem ela, mesmo os que um dia foram “equilibrados” talvez com o passar dos anos, com os calos e cicatrizes adquiridos ao longo da vida e seus elementos, se transformaram em representantes da aspereza, rudez, egoísmo (salve-se quem puder), e até torturadores emocionais dos mais próximos ou fragilizados. Pais que surram os filhos porque chegaram em casa nervosos com o trabalho, irmãos que se pegam por futilidades, tios e tias mais que desconhecidos, primos estranhos. São tantos os percursos da vida em que se caminha sobre ovos, que a família poderia e deveria ser um tapete macio e seguro. Mas não! São mais ovos e ovos e ovos. Muito esclarecedor seu artigo, porque também faz entender que somos mais responsáveis pelo resultado de nossas vidas do que imaginávamos!

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  2. Estamos atravessando "Nóvos Tempos",uma nóva era de comportamentos sociais.É preciso ter maleabilidade mental, reestruturar conceitos e adquirir nóvos hábitos. Se não acontece com a família x, acontece com a família y. Precisam tôdos desenvolver em sí mesmos a compaixão, a compreensão, um pouco mais de bôa vontade para se colocar no lugar do "outro". Enfim, enquanto não abrigarmos em nossos corações um pouco mais de humanidade e amôr, o caos familiar há de ser uma constante.--- Muito oportuno esse artigo, gostei muito, como sempre: Parabens! Cecilia.

    6 de Abril de 2008 11:14

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  3. Emoções, esta palavra é o primeiro aprendizado do ser humano em familia. Familia sempre será ligada a parente. Serpente, figura sempre integrante da familia. Atitudes... descobrimos e aprendemos com a familia. Poderia citar vários itens sobre a postagem "Parente, serpente?".
    A feliz comparação do termo, é fato.
    Estamos e precisamos esta cientes de que lidamos com serpentes (parentes), ou seja, podemos conviver felizes sabendo das limitações que temos, dos cuidados que devemos ter, o respeito pelos membros (serpentes) de nossa familia. Sempre que substimarmos nossos poderes de controle e habilidade com todos parentes (serpentes), nós mesmo nos envenenamos e muitas vezes "morremos" para alguns deles.
    Gostaria de ter lido antes.
    Parabéns.
    Acredito que tenha vivido muito mais do que relatou.
    Termino parabenizando sua excelente comparação.
    Paulo von Gal

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