segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Mágoa


Hoje, baixo os braços.
Sinto ruir a fortaleza que me tornei. Sinto-me nada.
Transpareço a fraqueza diante da vida em profunda tristeza e a estranha sensação de paralisia. Conseqüência abismal, do comportamento inesperado de uma das minhas filhas que, impensadamente, marcou minha existência de forma indelével, resultando no meu reconhecimento da absoluta falta de reciprocidade de sentimentos nessa relação afetiva.
Quanto vale uma decepção?
Vale a boca calada, a alma sangrando e
o pensamento solitário na confiança perdida.


-o-


E uma mulher que trazia um menino ao colo disse: Fala-nos das Crianças.
E ele respondeu: Os vossos filhos não são vossos filhos, são filhos e filhas do chamamento da própria Vida.
Vêm por vosso meio mas não de vós e, apesar de estarem convosco, não vos pertencem.
Podeis dar-lhes o vosso amor mas não os vossos pensamentos, porque eles tem pensamentos próprios.
Podeis acolher os seus corpos mas não as suas almas, porque as suas almas habitam a casa do amanhã, que não podeis visitar nem sequer em sonhos.
Podeis esforçar-vos por ser como eles mas não tenteis fazê-los como vós. Porque a vida não vai para trás nem se detém com o ontem.
Sois os arcos, e os vossos filhos as setas vivas projetadas.
O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito e retesa-vos com o seu poder, para que as setas possam voar depressa para longe.
Que a vossa tensão na mão do Arqueiro seja de alegria.
Porque assim, como ele gosta da seta que voa, também gosta do arco que fica.


Khalil Gibran, The Prophet

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

JURANDIR CZACZKES


Juca Chaves (1938 in Rio de Janeiro, as Jurandir Czaczkes) is a Brazilian comedian, singer and writer well known for his irreverence. He is son of Austrian Jews immigrants.
An active critic of the
Brazilian military dictatorship, he went to exile in the early 1970’s, first in Portugal and later Italy. After his return to Brazil, he hosted a program on national TV and subsequently made a career as a comedian. He currently lives in Bahia.




A Cúmplice

Eu quero uma mulher que seja diferente,
de todas que eu já tive, todas tão iguais,
que seja minha amiga, amante, confidente,
a cúmplice de tudo que eu fizer a mais.

No corpo tenha o Sol, no coração a Lua,
a pele cor de sonho as formas de maçãs,
a fina transparência uma elegância nua,
o mágico fascínio, o cheiro das manhãs.

Eu quero uma mulher de coloridos modos,
que morda os lábios sempre que for me abraçar,
no seu falar provoque o silenciar de todos
e seu silêncio obrigue a me fazer sonhar.

Que saiba receber, que saiba ser bem-vinda,
que possa dar jeitinho a tudo que fizer,
que ao sorrir provoque uma covinha linda,
de dia uma menina, a noite uma mulher.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO



Nasceu a 26 de Setembro de 1936, em Porto alegre – Rio Grande do Sul no Brasil. Iniciou os estudos na sua terra natal tendo depois passado por escolas nos Estados Unidos onde viveu dois anos. Aos 16 anos estudou música na Roosevelt High School de Washington, sendo hoje inseparável do seu saxofone. Iniciou a sua carreira jornalística nos finais de 1966. Escritor prolífero, são de sua autoria “O Popular”, “A grande mulher nua”, “As Cobras e outros Bichos”, “Procurando o Silva”, entre outros. É filho do grande escritor brasileiro Erico Veríssimo.




"Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando, que sonhando, fazendo, que planejando, vivendo, que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."



Luis Fernando Veríssimo









quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A ARTE DE ESCREVER - DIFERENÇA CULTURAL




1) QUANDO SE TEM DOUTORADO




O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da evaporação do H2O predominante no líquido obtido por prensagem do caule da Gramínea Saccharus Officinarum Linneu 1758, isento de outro tipo de processamento suplementar que elimine suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica sólida de reduzidas dimensões e arestas retilíneas, configurando pirâmide truncada de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a contato no órgão do paladar de quem se disponha a teste organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo a percepção sensorial equivalente a provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo, viscoso e de alta densidade, produzido nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera Linneu 1758. Experimentalmente comprovou-se que esse dissacarídeo, no estado físico-químico descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, tem considerável resistência, devida ao alto grau de agregação de suas moléculas que dificulta a alteração significativa de suas dimensões quando submetido a tensão mecânica de compressão ao longo do seu eixo, em completa ausência de capacidade de deformação, que lhe é peculiar.




2) QUANDO SE TEM MESTRADO




A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando-se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou suas proporções quando submetida a uma tensão axial em consequência da aplicação de compressão equivalente e oposta.




3) QUANDO É PÓS GRADUADO




O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e, apresentando-se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma tronco-piramidal, tem sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas; todavia não muda suas proporções quando sujeito à compressão.




4) QUANDO CURSOU O UNIVERSITÁRIO




Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos, tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma, quando pressionado.




5) QUANDO CURSOU ENSINO MÉDIO




Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas não é macio ou flexível.




6) QUANDO CURSOU O ENSINO FUNDAMENTAL




Rapadura é doce, mas não é mole, não !!!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O desejo é um sonho já quase real transmudado da não matéria ao plano do querer, em sendo a palavra que o ato encontra.
Adroaldo Bauer

SÍNDROME DA PAIXÃO

O psiquiatra Rubens Coura afirma que esse sentimento só traz infelicidade e defende que o problema seja tratado no divã e com a ajuda de remédios.



Istoé – O que é paixão?
Coura – É um arrebatamento, de mal conhecer o outro e já idolatrá-lo, sem limite, sem condição alguma. O outro pode ser de qualquer tipo, nível cultural ou social. Não é preciso conhecer sua vida, família. Amor à primeira vista é, na verdade, paixão amorosa à primeira vista. A paixão é solitária. Ela vem antes do outro.
Istoé – Ela pode se transformar em amor?
Coura – Muito dificilmente. Isso é raro acontecer.
Istoé – Mas quando se começa um namoro, as pessoas se dizem apaixonadas.
Coura – É mais um entusiasmo de conhecer alguém interessante e usar a palavra paixão. Mas não é paixão.
Istoé – Qual a diferença entre o entusiasmo e a paixão?
Coura – O entusiasmo é a vontade de conhecer mais a pessoa. A paixão é cega, é uma devoção completa. É possessiva. Não se pode ficar longe do objeto da paixão.
Istoé – E o amor?
Coura – O amor não é instantâneo e brutal como a paixão. É sempre bilateral e se desenvolve com contato, admiração pelas qualidades, perdão pelos defeitos. Amplia as coisas. Quando duas pessoas se amam, costumam alargar o círculo de amigos, de interesses. Elas evoluem em suas profissões, estudam mais. Na paixão, não. Só querem um ao outro. Mas o amor tem algo da paixão. Afinal, paixão é como uma prévia do amor. Não no sentido de se transformar em amor. Isso é raríssimo. É um ensaio de amor do adolescente. É natural nessa fase.
Istoé – Todos se apaixonam um dia?
Coura – Em algum grau sim. Nem todos têm a paixão devastadora nem o azar de ser correspondido. O amor correspondido é uma maravilha, mas a paixão é um desastre. Ela é quase uma loucura.
Istoé – É sempre doença?
Coura – Sim, porque não conta com o outro, quer controlá-lo. O apaixonado idealiza uma pessoa violentamente e descobre uma vítima para moldá-la para aquilo que já está pronto dentro de si.
Istoé – A paixão pode durar uma vida?
Coura – Não. Em geral ela é fugaz.
Istoé – O que causa a paixão?
Coura – Em geral, é uma imaturidade própria do adolescente e que dentro de alguns limites é natural.
Istoé – E a paixão doentia que se repete?
Coura – A causa é um núcleo narcísico infantil que persiste. É uma neurose grave. Vem da evolução psíquica de cada pessoa. A pessoa não aprende com a paixão e a repete. Não é comum se apaixonar mais de uma vez na vida. As pessoas geralmente aprendem com a primeira e única paixão.
Istoé – É possível amar sem nunca ter se apaixonado?
Coura – É difícil. Em larga medida, é como uma doença inevitável, como as dores do crescimento. Quando o adolescente cresce, sente dor em várias articulações. A paixão é uma dor psíquica de crescimento.
Istoé – Não conseguir passar da paixão para o amor pode ser sinônimo de medo de amar?
Coura – Claro, a paixão é muito mais fácil. Eu sou eu e acabou. E a paixão não se transforma em amor porque dá ressaca de vingança, ódio, ressentimento. Mas pode uma paixão terminar completamente e a pessoa se reencontrar e desenvolver o amor.
Istoé – O sr. compara a paixão com alguma outra doença?
Coura – Acho que pessoas que se apaixonam a toda hora e não conseguem passar desse estágio são como um alcoólatra. Ele bebe, sabe que está errado, todos sofrem, ele sofre e não consegue evitar a bebida. Aí pára por um período, e como continua com os mesmos núcleos neuróticos, geralmente volta a beber. Paixões que se repetem são como o alcoolismo. Um adolescente tem um grande porre, como um batismo, mas raríssimos se tornarão alcoólatras. Paixão é parecido.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Cinco Lições Corporativas



Lição No. 1


Um homem está entrando no chuveiro enquanto sua mulher acaba de sair dele e está se enxugando. A campainha toca. Depois de alguns segundos de discussão para ver quem vai atender, a mulher desiste se enrola na toalha e desce as escadas. Quando ela abre a porta, vê o vizinho Pedro em pé na soleira. Antes que ela possa dizer qualquer coisa, Pedro diz: - Eu lhe dou 800 Reais se você deixar cair esta toalha! Depois de pensar por alguns segundos, a mulher deixa a toalha cair e fica nua. Pedro então entrega a ela os 800 Reais prometidos e vai embora. Confusa e incrédula com sua sorte, a mulher se enrola de novo na toalha e volta para o quarto. Quando ela entra no quarto, o marido grita do chuveiro: - Quem era? Ela diz: - Era o Pedro, o vizinho da casa ao lado. O marido diz: - Ótimo! Ele lhe deu os R$ 800,00 que estava me devendo?


Moral da história: Se você compartilha as informações a tempo, pode prevenir "exposições" desnecessárias!



Lição No. 2


Dois funcionários e o gerente de uma empresa saem para almoçar e na rua encontram uma antiga lâmpada a óleo. Eles esfregam a lâmpada e de dentro dela sai um gênio. O gênio diz:
- Eu só posso conceder três desejos, então concederei um a cada um de vocês.
- Eu primeiro, eu primeiro! Grita um dos funcionários. - Eu quero estar nas Bahamas dirigindo um barco, sem ter nenhuma preocupação na vida! Puf! E ele se foi. O outro funcionário se apressa a fazer o seu pedido: - Eu quero estar no Havaí, com o amor da minha vida e um provimento interminável de piñas coladas! Puf! E ele se foi.- Agora você! Diz o gênio para o Gerente. - Eu quero aqueles dois de volta ao escritório logo depois do almoço!


Moral da História: Deixe sempre o seu chefe falar primeiro.



Lição Nº 3


Um corvo está sentado numa grande árvore o dia inteiro sem fazer nada. Um pequeno coelho vê o corvo e pergunta: - Eu posso sentar como você e não fazer nada o dia inteiro?
O corvo responde: - Claro, por que não? O coelho então se senta no chão em baixo da árvore e relaxa. De repente uma raposa aparece e come o coelho.


Moral da História: Para ficar sentado sem fazer nada, você deve estar sentado bem no alto!


Lição Nº 4


Na África, todas as manhãs, a mais lenta das gazelas acorda sabendo que deve conseguir correr mais depressa do que o mais rápido dos leões, se quiser se manter viva. E todas as manhãs, o mais lento dos leões acorda sabendo que deve correr mais depressa do que a mais rápida das gazelas, se ele não quiser morrer de fome.


Moral da História: Não faz diferença se você é a gazela ou o leão, quando o sol nascer "comece a correr"!


Lição Nº 5 (a melhor)


Um fazendeiro resolve colher algumas frutas em sua propriedade. Com um balde, segue rumo às árvores frutíferas. No caminho ao passar por uma lagoa, ouve vozes femininas de alguém que provavelmente invadira suas terras. Ao se aproximar lentamente, observa várias garotas nuas se banhando na lagoa. Quando elas percebem a presença do fazendeiro, nadam até a parte mais profunda e gritam: - Nós não vamos sair daqui enquanto o senhor não parar de nos espiar e for embora! O fazendeiro responde:- Eu não vim aqui para espiar vocês, eu só vim alimentar os jacarés!


Moral da História: A criatividade e a rapidez de raciocínio, são o que fazem a diferença quando queremos atingir nossos objetivos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O AMOR NO TERCEIRO MILÊNIO


Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossas felicidades, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização (…). A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso - o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe/princesa ou salvador(a) de coisa alguma. É apenas um(a) companheiro(a) de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria, ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral. A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo…
© Texto Dr. Flávio Gikovate

sábado, 12 de janeiro de 2008

FISIOLOGIA DA PAIXÃO


O ENCÉFALO, OS NEUROTRANSMISSORES E A PAIXÃO


O chamado diencéfalo ou cérebro primitivo, comum a todos os mamíferos, intervém, através do hipotálamo, no desejo, no interesse sexual e também recolhe as informações que chegam do exterior e dos hormônios, controlando-os e dando as respostas da excitação sexual, ejaculação, sensações de prazer e regulando as respostas emocionais e afetivas no comportamento sexual.
O sistema límbico discrimina e seleciona os estímulos, reconhecendo os sinais de saciedade (estar satisfeito) e inibindo o comportamento sexual.
A nossa sexualidade apresenta-se não apenas em nível dos estímulos (visuais,fantasias ,etc) ,como também na participação muito importante da emoção e sobretudo na aprendizagem. Algumas partes do nosso cérebro relacionam o ambiente e a cultura às nossas respostas sexuais. O resultado pode ter maior ou menor eficácia dando aos parceiros, maior ou menor prazer.
Razão, fantasia, emoção e aprendizagem se misturam em nosso cérebro dando respostas curiosas no dia a dia sexual do ser humano.
Os neurotransmissores cumprem uma função indispensável na ativação do impulso sexual, como por exemplo, quando as carícias e beijos levam a lubrificação vaginal e à ereção peniana.
Os cientistas conhecem a feniletilamina (um dos mais simples neurotransmissores) há cerca de 100 anos, mas só recentemente começaram a associá-la à paixão. Ela é uma molécula natural semelhante à anfetamina e suspeita-se que sua produção no cérebro possa ser desencadeada por eventos tão simples como uma troca de olhares ou um aperto de mãos.
O “affair” da feniletilamina com a paixão teve início com uma teoria proposta pelos médicos Donald F. Klein e Michael Lebowitz, do Instituto Psiquiátrico Estadual de Nova Iorque. Eles sugeriram que o cérebro de uma pessoa apaixonada continha grandes quantidades de feniletilamina, e que esta substância poderia responder, em grande parte, pelas sensações e modificações fisiológicas que experimentamos quando estamos apaixonados.


PAIXÃO X TEMPO


Existe um limite de tempo para homens e mulheres sentirem os arroubos da paixão? Segundo a professora Cindy Hazan, da Universidade Cornell de Nova Iorque, sim. Ela diz: "seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses". Ela entrevistou e testou 5.000 pessoas de 37 culturas diferentes e descobriu que a paixão possui um "tempo de vida" longo o suficiente para que o casal se conheça, copule e produza uma criança.
A pesquisadora identificou algumas substâncias responsáveis pelo amor-paixão: dopamina, feniletilamina e ocitocina. Estes produtos químicos são todos relativamente comuns no corpo humano, mas são encontrados juntos apenas durante as fases iniciais do flerte. Ainda assim, com o tempo, o organismo vai se tornando resistente aos seus efeitos - e toda a "loucura" da paixão desvanece gradualmente - a fase de atração não dura para sempre. O casal, então, se vê frente a uma dicotomia: ou se separa ou habitua-se a manifestações mais brandas de amor - companheirismo, afeto e tolerância, e permanece junto. "Isto é especialmente verdadeiro quando filhos estão envolvidos na relação", diz a Dra. Hazan.
Os homens parecem ser mais susceptíveis à ação dessas substâncias. Eles se apaixonam mais rápida e facilmente que as mulheres. E a Dra. Hazan é categórica quanto ao que leva um casal a se apaixonar e reproduzir: "graças à intensidade da ilusão romanceada, achamos que escolhemos nossos parceiros; mas a verdade é conhecida até mesmo pelos zeladores dos zoológicos: a maneira mais confiável de se fazer com que um casal de qualquer espécie reproduza é mantê-los em um mesmo espaço durante algum tempo".
Com base em outras pesquisas desenvolvidas pela Dra. Helen Fisher, antropologista da Universidade Rutgers e autora do livro The Anatomy of Love, pode-se fazer um quadro com as várias manifestações e fases do amor e suas relações com diferentes substâncias químicas no corpo:
Manifestação

Conceito

Substância mais associada
Luxúria

Desejo ardente por sexo

Testosterona (aumento da libido – desejo sexual)
Atração

Amor no estágio de euforia, envolvimento emocional e romance

Altos níveis de dopamina e norepinefrina (noradrenalina): ligadas à inconstância, exaltação, euforia, e a falta de sono e de apetite.
Baixos níveis de serotonina: tendo em vista a ação da serotonina na diminuição de fatores liberadores de gonadotrofinas pela hipófise, quanto mais serotonina menos hormônio sexual.
Ligação

Atração que evolui para uma relação calma, duradoura e segura.

Ocitocina (associada ao aumento do desejo sexual, orgasmo e bem-estar geral) e vasopressina (ADH), associada à regulação cardiovascular, atuando no controle da pressão sangüínea.

OS SENTIDOS E A PAIXÃO

VISÃO


A visão é, provavelmente, a fonte de estimulação sexual mais importante que existe.
No homem, existem numerosos estímulos visuais envolvidos na atração sexual, que vão muito além da visão dos genitais do sexo oposto. A forma de mover-se, um olhar, um gesto, inclusive a forma de vestir-se, são estímulos que, enquanto potencializam a capacidade de imaginação do ser humano, podem resultar mais atraentes que a contemplação pura e simples de um corpo nu.
Segundo o neurobiólogo James Old, o amor entra pelos olhos.
Imaginemos duas pessoas que não se conhecem e se encontram em uma festa:
Ambos se olham e imediatamente se avaliam, o que ativa neocórtex, especializado em selecionar e avaliar.
O primeiro nível de avaliação de ambos será o biológico (tem orelhas, duas pernas etc) e enfim, geneticamente saudável.
Depois a análise continua por padrões baseados na experiência de cada um: tipos físicos reforçados como positivos pelos pais, amigos e meios de comunicação.
Simultaneamente se avaliam dentro de seu tempo e cultura: numa sociedade propensa a sucumbir a pragas e escassez de alimentos, mulheres mais cheinhas eram sinônimo de saúde e fortaleza.
Elas são mais seletivas
O neurobiólogo aponta que no caso feminino também existe um fator adicional e mais abstrato: o poder (também ocorrem mudanças com o tempo e cultura)
Segundo o pesquisador, como as mulheres geneticamente têm menos oportunidades para procriar (o número de gametas femininos é menor do que o de espermatozóides), elas buscam no selecionado a capacidade de prover e proteger seus filhos.
AUDIÇÃO
No homem, a aparição da linguagem representa um passo muito mais avançado como meio de solicitação sexual. Em praticamente todas as sociedades humanas, o uso de frases e canções amorosas constitui uma das preliminares mais habituais. Libertado o cérebro da carga social, uma frase erótica, sussurrada ao ouvido, pode resultar tão incitadora quanto um bramido de elefante na imensidão da selva.
De acordo com investigações do Krasnow Institute for Advanced Study of George Mason University, não só as primeiras palavras, mas também os tons de voz deverão responder aos padrões de saúde e genética desejados na escolha do(a) parceiro(a).


TATO: a pele com a qual amamos


A superfície do corpo humano, com aproximadamente dois metros quadrados de extensão é, poderíamos dizer, o maior órgão sexual do homem. Mais do que simplesmente um dos sentidos, o tato é a resultante de muitos ingredientes: sensibilidades superficiais (epidérmicas e dérmicas), profundas, como a proprioceptiva, ligada a movimento, vontade de explorar e atividade motora, emoções, memória, imaginação.
Existem cerca de cinco milhões de receptores do tato na pele, as pontas dos dedos tem uns 3.000 que enviam impulsos nervosos ao cérebro através da medula. O tato é provavelmente o mais primitivo dos sentidos. É a mais elementar, talvez a mais predominante experiência do ser humano, mesmo naquele que ainda não chegou a nascer. O bebê explora o mundo pelo tato. Assim, descobre onde termina seu corpo e onde começa o mundo exterior. Esse sentido é seu primeiro guia.
O sentido do tato proporciona um contato imediato com os objetos percebidos e, na relação humana, é uma experiência inevitavelmente recíproca: pele contra a pele provoca imediatamente um nível de conhecimento mútuo. Na relação com o outro, não é possível experimentá-la.
Encontramos homens com problemas sexuais que não beijam, não abraçam e nem acariciam sua parceira. Para quê? Pensam eles. Este modelo de comportamento impede que muitos casais desfrutem do prazer que pode proporcionar o simples fato de dar e receber carícias.
A estimulação tátil é uma necessidade básica, tão importante para o desenvolvimento como os alimentos, as roupas, etc.. O contato físico é a forma de comunicação mais íntima e intensa dos seres humanos, segundo alguns estudos, até os mais insignificantes contatos físicos tem notáveis efeitos.
Nós realmente "sentimos com o olho da mente" - Uma região do cérebro envolvida no processamento do sentido da visão é também necessária para o sentido do tato. Resultados da Universidade de Emory, que confirmam o papel do córtex visual na percepção táctil (toque), foram publicados na edição da revista Nature de 06/10/1999.
As conclusões do estudo são relevantes para o entendimento de não apenas como o cérebro normalmente processa a informação sensorial, "mas também como o processamento é alterado em condições como cegueira, surdez ou torpor e, principalmente, para melhoria dos métodos de comunicação em indivíduos que sofrem de tais desordens", de acordo com Krishnankutty Sathian, Ph.D.
Até recentemente, cientistas acreditavam que regiões separadas do cérebro processavam a informação advinda de vários sentidos. Essa idéia está sendo, agora, desafiada. As descobertas recentes de que o córtex visual de deficientes visuais é ativado durante a leitura em Braille não são tão surpreendentes se apreciadas por este contexto. Os resultados obtidos pelo grupo de pesquisa demonstram que uma região do córtex cerebral, associada à visão, é ativada quando os humanos tentam distinguir a orientação através do tato.
Juntamente aos depoimentos subjetivos da imagem visual e a ativação cortical parieto-occiptal associada, as descobertas levam a crer que o processamento visual facilita a discriminação tátil normal de orientação. Isso, provavelmente, está relacionado ao fato de que geralmente confiamos no sistema visual para nos orientarmos.


PALADAR


Desde muito cedo, a boca é a primeira fonte de prazer. Com 16 semanas de vida, além de fazer caretas, levantar as sobrancelhas e coçar a cabeça, as papilas gustativas já estão desenvolvidas. A experiência tem demonstrado que o feto faz careta e para de engolir quando uma gota de substância amarga é colocada no líquido amniótico. Por outro lado, uma substância doce provoca a aceleração dos movimentos de sucção e deglutição.
Aliás, o prazer do paladar continua na fase em que o bebê se amamenta através do mamilo da sua mãe. Daí para frente, o paladar fica cada vez mais apurado.
A boca é uma das partes que compõem o rosto de qualquer pessoa. Quanto a isto, não restam margem para dúvidas. Mas o que se calhar não sabe, é que a zona bocal é a última parte a adquirir todas as formas e recortes finais, embora seja a primeira a sentir as emoções iniciais da vivência.
A língua é a base de todo o paladar e a boca é uma das partes mais sensíveis do corpo e mais versáteis. Um beijo combina os três sentidos de tato, paladar e olfato. Favorece o aparelho circulatório, aumenta de 70 para 150 os batimentos do coração e beneficia a oxigenação do sangue. Sem esquecer que o beijo estimula a liberação de hormônios que causam bem-estar. Detalhe: na troca de saliva, a boca é invadida por cerca de 250 bactérias, 9 miligramas de água, 18 de substâncias orgânicas, 7 decigramas de albumina, 711 miligramas de materiais gordurosos e 45 miligramas de sais minerais. As terminações nervosas reagem ao estímulo erótico e promovem uma reação em cadeia. Ao mesmo tempo, as células olfativas do nariz , mais próximas da boca, permitem tocar, cheirar e degustar o outro.


OLFATO


O amor não começa quando os olhares se encontram, mas sim um pouco mais embaixo, no nariz. "Há circuitos que vão do olfato até o cérebro e levam uma mensagem muito clara: sexo", explica Maria Rosa García Medina, especialista em sentidos químicos do Laboratório de Pesquisas Sensoriais do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), da Argentina.
Alguns pesquisadores afirmam que exalamos continuamente, pelos bilhões de poros na pele e até mesmo pelo hálito, produtos químicos voláteis chamados ferormônios.
Estudos têm demonstrado que a maior parte das espécies de vertebrados tem um órgão situado na cavidade nasal denominado órgão vomeronasal (OVN). A finalidade do OVN parece ser exclusivamente a de detectar sinais químicos, os ferormônios, envolvidos no comportamento sexual e de marcação de território.
Atualmente, existem evidências intrigantes e controvertidas de que os seres humanos podem se comunicar com sinais bioquímicos inconscientes. Os que defendem a existência dos ferormônios baseiam-se em evidências mostrando a presença e a utilização de ferormônios por espécies tão diversas como borboletas, formigas, lobos, elefantes e pequenos símios. Os ferormônios podem sinalizar interesses sexuais, situações de perigo e outros.
Os defensores da Teoria dos Ferormônios vão ainda mais longe: dizem que o "amor à primeira vista" é a maior prova da existência destas substâncias controvertidas. Os ferormônios atestam, produzem reações químicas que resultam em sensações prazerosas. À medida em que vamos nos tornando dependentes, a cada ausência mais prolongada nos dizemos "apaixonados", a ansiedade da paixão, então, seria o sintoma mais pertinente da Síndrome de Abstinência de Ferormônios.
Com ou sem ferormônios, é fato que a sensação de "amor à primeira vista" relaciona-se significativamente a grandes quantidades de feniletilamina, dopamina e norepinefrina no organismo. E voltamos à questão inicial: até que ponto a paixão é simplesmente uma reação química?
Um tradicional exemplo do estreito vínculo entre olfato e desejo é a síndrome de Kalman, um quadro genético de alteração hormonal que prejudica a puberdade e que está acompanhado por uma ausência congênita do olfato. Com a ajuda de tratamento, esses pacientes chegam a ter níveis normais de hormônios, mas não recuperam o olfato e isso têm efeitos diretos em sua vida afetiva.
O laboratório canadense Pheromone Sciences Corp. isolou e caracterizou os diversos ferormônios extraídos do suor. Uma primeira pesquisa revelou que o composto pode estimular a libido em homens e mulheres. Os pesquisadores esperam que, em um futuro não muito distante, esse derivado de ferormônios possa servir como tratamento efetivo e seguro para determinadas disfunções sexuais. Inclusive como complemento de remédios como o Viagra.
"Alguns derivados dos ferormônios já são usados para casos de frigidez feminina e ajudam na primeira etapa da sexualidade, que é o desejo", afirma García Medina. "Isso pode ter um grande potencial em outros tipos de disfunções sexuais, mas ao mesmo tempo, reacende questões éticas: É lícito interferir dessa forma no comportamento de uma pessoa?"
Não há duas pessoas que possuam exatamente o mesmo cheiro, embora haja algumas semelhanças entre membros de uma mesma etnia. O odor corporal é fortemente influenciado pelo tipo de alimentação e influencia nossas preferências por certos aromas. Pessoas que gostam de comidas muito temperadas também preferem fragrâncias fortes e penetrantes, como as que contêm patchuli, sândalo ou gengibre. Aquelas que consomem mais laticínios preferem fragrâncias florais, como lavanda e néroli (flor de laranjeira). A alimentação branda porém saudável dos japoneses, baseada principalmente em peixes, verduras e arroz, em conjunto com os banhos freqüentes e meticulosos, é uma das razões pelas quais seu odor corporal é praticamente inexistente, ao menos para o olfato de outras etnias. Os japoneses são atraídos por fragrâncias delicadas. E, enquanto os esquimós são tidos como tendo cheiro de peixe e os africanos cheiro de amoníaco, o resto do mundo concorda que o cheiro azedo dos europeus é o mais nauseante (neste caso não seria pela conhecida carência de banho?).
Há duas décadas atrás, cientistas europeus conseguiram reproduzir os ferormônios em laboratório. Alguns anos mais tarde, empresários americanos compraram a fórmula, fabricaram o produto em quantidades industriais e o engarrafaram em belos vidrinhos. Agora, os tais ferormônios estão à venda na Internet. O representante brasileiro do perfume americano The Scent promete: "É garantido! Você vai conquistar a mulher dos seus sonhos pelo cheiro". No site da empresa, o extrato de ferormônios é promovido como um "afrodisíaco natural", uma "química revolucionária", um "grande segredo vindo da natureza"; em síntese: "um estimulante sexual da mulher", que foi "inteligentemente mascarado como uma colônia masculina". Segundo seus fabricantes, este produto mágico age diretamente no subconsciente da mulher, despertando seu desejo sexual sem que ela saiba o porquê de se sentir loucamente atraída pelo galã perfumado. Mesmo sem explicações válidas, o site jura que "ela ficará totalmente a sua mercê". Ficou curioso? As belas promessas continuam: "você usa, é invisível, não tem cheiro, ninguém ficará sabendo, só você. É a ciência médica interferindo na nossa vida sexual, uma arma que ajudará nas suas conquistas". Segundo os responsáveis pelo produto, o sujeito que utilizar a poderosa colônia atrairá todos os olhares femininos, gerando "mais contatos imediatos e, sem dúvida, uma vida sexual mais ativa do que poderia um dia imaginar, não importa a sua aparência, não importa o nível social. Onde quer que você esteja, passará a chamar muita atenção, como um imã". Mas será que funcionam mesmo? Como você já deve ter percebido, o mesmo perfume ou loção após a barba, exala diversos cheiros em diferentes pessoas, especialmente naquelas do sexo oposto. À medida que a fragrância vaporiza e interage com nossa química própria, várias mudanças do aroma tornam-se perceptíveis.
Finalizando
Apesar de todas as pesquisas e descobertas, existe no ar uma sensação de que a evolução, por algum motivo, deu-se no sentido de que o amor, não associado à procriação, surgisse e calcula-se que isto se deu há aproximadamente 10.000 anos. Os homens passaram realmente a amar as mulheres, e algumas destas passaram a olhar os homens como algo mais além de máquinas de proteção.
A despeito de todos os tubos de ensaio de sofisticados laboratórios e reações químicas e moléculas citoplasmáticas, afinal, deve haver algo mais entre o céu e a terra...
De qualquer forma, quando decidimos que temos química com alguém, o mais provável é que estejamos literalmente certos.